PARTE DE MIM É APRENDER...
Quando iniciei minha vida escolar,
lembro-me do primeiro dia. Minha mãe me levou até
a porta da sala e eu não entrei de imediato, talvez percebesse como era essencial
o oficio de aprender algo novo. O ano era 1997 eu
tinha apenas seis anos sentei e chorei na área
da escola, queria ir embora. Era uma escolinha de duas salas apenas e um vão
que ia de um lado a outro coberto de telhas de cerâmica vermelha e madeira
branca. Levava numa sacola de supermercado meu caderninho e um lápis com uma
borracha na extremidade. Lápis do “Piu-Piu” amarelinho que perdi logo na volta
para casa, ou alguém pegou, não sei. Ceinha era a professora, uma mulher alta e
sorridente que me pegou pelos braços e me acalmou.
A escola era chamada de Escola Enéas
Araújo Ramos. A aula era boa, mas o que mais fazia era dormir. Lembro-me que a
primeira letra que aprendi foi o “t” (desses que sobe e corta). Eu demorei
muito a aprender (a tão amiguinha “A”, mas a Pró, coitada insistia em me ensinar o “A”. A professora pegava a mão
para coordenar a escrita; ora dava uns puxões no braço para que ficasse quieto,
mas ela era destra e eu canhoto. Assim ficava difícil. Ensinou-me o lado oposto
de minha lateralidade. Eu até hoje não sei identificar direito qual o lado
esquerdo do meu corpo e, assim, eu acabei
ficando canhoto. Aliás, eu sempre fui.
Fui crescendo e na
quarta série, minha mãe me transferiu de escola e eu fui para uma escola
particular. Estudei um ano inteiro lá, aprendi a
ler e escrever um pouco mais. Na escola que estudava anteriormente era numa
turma multisseriada e quase ninguém aprendia nada ou muito pouco se aprendia.
Mudavam-se professores, mas continuávamos a mesma turma, os mesmos desenhos,
coelho, cavalinho, papai Noel, patinho olhando para trás, pintinhos,
passarinhos, palhaços e indiozinhos com tanguinhas e cara pintadas, muitas
penas. Andava dois quilômetros; iam dois meninos e uma menina. Estudávamos e
voltávamos para casa morrendo de medo e cansados.
Sempre fui molenga, medo de tudo, de
boi, de fantasma, de carropapafigo, velho do saco. Brincava na escola e corria
o dia. No colegial sempre peguei livros na fase do colégio, pegava livros
didáticos nos armários que ficavam na sala cinco, pois a escola possuía apenas cinco
salas e a grande era usada com biblioteca. Pegava para ensinar a meus primos
menores, eu comprava pipoca doce para que os
meninos tivessem “vontade” de ir para minha casa brincar de escolinha. Eu era
sempre o professor e eles eram obrigados a estudar. Eu
tomava leitura, fazia desenhos para que eles pintassem. Coitados, viviam no
castigo. Quando eles iam embora, eu dava sempre uma pipoquinha para voltar e
ficarem mais um pouco. Pois bala, pirulito e pipoca sempre foi o melhor remédio
para que eles estudassem.
Formei-me no colegial e sonhava em ser
professor. Amava meus professores, com exceções. Claro, nem todos eram doces e
bons. Mas até os menos resolvidos me fizeram refletir o que é ser professor, implantou
em mim um desejo de ser professor como ele. Eram exemplos de vida, pessoas que
tinham me ensinado a ser gente. Humanizaram, sensibilizaram, deram-me muito do
que sou, me orientaram, conversaram comigo, aconselharam e secaram
lágrimas. Fizeram-me ser melhor. Eu
sonhava em ingressar em uma faculdade. Mas, não sabia muito bem o que fazer. O
sonho parecia que estava longe, pobre, da roça e meio desacreditado nunca me vi
dentro de um espaço desses e nem sabia se teria jeito de um dia ir para lá. Fiz
um vestibular, meu primeiro. Acreditava que conseguiria passar, Passei. E agora
eu nem tinha idéia do que fazer. Pois me senti meio bobo, não comemorei, me vi
dentro de um espaço diferente do que vivia. Novas linguagens outros sujeitos.
Cai de pára-quedas no mundo da Universidade. Coitado, não tinha ideia do que iria
acontecer pela frente. Fui me afeiçoando com o meio acadêmico. Aprendi a viver
no meio dos estudiosos, doutores, mestres e colegas. A animação nasceu da
dúvida, aprender a aprender foi o caminho para me construir como sujeito
autônomo, crítico e pensante.
Vi-me professor nas experiências dos
estágios. Tive a graça de ensinar as crianças de uma escola pública. Nas minhas
primeiras turmas durante quatro anos vive entre crianças, num mundo de cores e
desafios. Doei-me ao máximo para que os meninos aprendessem a ler e escrever, calcular,
contar, entender os mapas, os rios e textos. O mundo todo cabia em mim e as
emoções me revigoravam a cada dia. Eu plantava vida, flores, cores, dores e nos
espaços de uma escola fiz um encontro com o meu sonho. Eu sou professor. Eu me
fiz professor, do sonho à realidade. Minha alma estava inteira. Meu sonho
realizado.
Hoje, tenho buscado preencher minha vida
pessoal nas relações entre meus alunos e meu mundo. Amo a escola, amo meus
alunos. Sinto que mesmo com as diferenças da educação de outrora, num outro
tempo a educação será plena a as pessoas respeitaram a vida. Sou educação
sempre será o lugar de se formar “gente” mais humanizada e capaz de melhorar o
mundo em que vivemos, aqui e agora. Educação é para a vida e é feita na vivência
diária entre o discurso e a prática coerente. Não me formei ainda; estou em
formação. Aliás, parte de mim é aprender, eternamente.
Paulo Lima de Araújo.

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